ATLETA NÃO-REATIVO

Paula Newby-Fraser, 8x campeã mundial de Ironman (foto: Slowtwitch)




*O texto a seguir é uma tradução do artigo "Are You Capable of Non-Reactive Training?" de Jené Shaw (e com participação de Gordo Byrn) disponível no site Triathlete, em maio de 2022. Clicando no título citado, você pode encontrar o texto na íntegra.  

Alguma das questões abaixo descreve uma experiência vivida?

- Você foi pedalar um treino longo junto de um pelotão, com objetivo específico de potência (ou frequência cardíaca), mas assim que os líderes atacam, você não conseguiu resistir.

- Você entra no modo "seguir até onde der" quando entra na maioria dos treinos de natação

- Você sofre com lesões de sobrecarga na corrida (síndrome da banda ílio-tibial, fratura por estresse, etc.)

- Algumas semanas depois de concluir um 70.3 ou um Ironman (ou triathlons com distâncias aproximadas), você não se segurou e mandou ver num treino de corrida super intenso por estar se sentindo em ótima forma.

 Se algum desses cenários são familiares, provavelmente você tem um problema com reatividade - ou o que o renomado treinador Gordo Byrn se refere ao "controle de excitamento" (tradução que encontrei para o termo "arousal control")

Ilustração: Você treinou pacientemente para o próximo Ironman e tem um plano estratégico de prova, completo com números-alvo de potência e frequência cardíaca. Mas, no calor da momento, durante o ciclismo, um competidor passa e você não consegue outra coisa a não ser colocar os objetivos para cima. Adiante mais uns passos para a metade da corrida e você está destruído.

"No nível mais básico, não-reatividade é a habilidade de não puxar ou "contra atacar" quando alguém força" - diz Byrn. "O esporte de endurance é sobre guardar energia, fazer suas próprias escolhas numa prova e não permitir que alguém tire de você a sua decisão."

Se você nunca praticou não-reatividade em um treino de baixo risco, executar durante a prova será um desafio. A boa notícia é que essa habilidade/comportamento é treinável e recompensador no evento.

"Estamos tentando prover o atleta a ser capaz de tomar decisão e responder a uma situação", diz Byrn. "Quando estamos realmente estressados ou cansados, começamos a reagir em vez de decidir. Queremos que as pessoas decidam." 

Como praticar a Não-Reatividade no treino
Caia. De propósito.
A sugestão de Byrn é praticar o controle de excitamento num ambiente de grupo de baixo estresse. O ciclismo é o esporte mais fácil para esta tentativa por você conseguir regular-se com a relação de marchas. Byrn: "Eu darei ao atleta um treino de endurance e lhe direi que quero que ele deixe o ritmo cair. Apenas quero que ele sinta como é a experiência."

Pedalar atrás
Se você é alguém que cronicamente teme ser deixado para trás - "como ser abandonado sozinho(a) na estrada" - pedale de forma que você fique 30 metros atrás o tempo inteiro. "Apenas fique ali e processe tudo que está acontecendo na sua cabeça e permita acontecer. Então, quando estiver numa prova, você tem praticado antes."

Nade numa raia mais lenta
O ambiente mais estressante para a maioria de nós é uma multidão em águas abertas. Se você tem a tendência reativa, pode se sentir totalmente sobrecarregado. Supere seu ego na piscina nadando em uma ou duas raias mais lentas e lidere a raia. "Não preciso liderar os primeiros 1500 metros, mas quero estar numa raia que posso liderar a série principal. Estou liderando o treino na intensidade que quero ao invés de estar se segurando na esteira mais rápida." Se tiver um treino-chave que você quer se desafiar, volte para a raia mais rápida.

Show num "training camp"
Um local seguro para testar os limites físicos é num training camp. "Acho bom permitir as pessoas qualquer coisa grande nesse ambiente. Muito dos limites físicos que colocamos, não estão realmente lá. Nós temos um limite mental que nos segura e o training camp é um bom lugar para descobrir que somos capazes de ir além do que pensamos poder." - Byrn.

Pratique Não-Reatividade numa prova
Agora que você se sente confiante na sua habilidade de correr a sua própria prova, comprove que sabe executar. "Um lema que tenho é que você pode fazer abaixo do seu condicionamento antes de tentar excedê-lo." Primeiro, foque em correr bem no final e desenfatize a natação e o ciclismo. Depois, tente pedalar e correr bem, para daí adicionar a natação. "Uma vez que você fez isso e aprendeu o evento, terá a experiência de ver o quanto pode forçar. Isso é particularmente útil para o meio e o completo Ironman."

Você também pode tirar vantagem de atletas mais agressivos. Por exemplo, na natação, ao invés de batalhar com aquele(a) que está lhe ultrapassando, "esconda-se" atrás dele (a) enquanto estiver servindo. Mantenha a calma, economize energia, sabendo que está indo bem e fazendo a sua parte.

Apesar do objetivo da não-reatividade é estar sob controle, quando você está em competição contra outros oponentes para vencer a prova, não estará sempre de acordo com plano. Ainda assim, requer condicionamento, experiência e um bom senso de antecipação.

"Acho que a maioria de nós compete como se estivesse querendo vencer, mesmo que não tenhamos a capacidade para. Competir para vencer é diferente porque precisa que você fique na frente e requer uma série de reações e coisas que mais se aproximam de um duelo entre estar abaixo do ideal e fazer um contrarrelógio. Mas na mesma linha, você precisa realizar aquelas decisões como parte de uma estratégia maior, compreendendo quais são as suas capacidades."

Vemos essa mentalidade calculada de risco nos profissionais o tempo inteiro. No recente Mundial de Ironman 2021 em St George, Lionel Sanders estava ciente das dinâmicas em torno dele, mas não permitiu que os outros ditassem a sua prova. Manteve sua estratégia e foi forte suficiente para um sprint final para a segunda posição. 

Fique atento ao pós-pico de condicionamento 
É preciso muita preparação para ficar em forma para um grande evento (maratona, 70.3, Ironman). Nos 10-17 dias depois, a dor vai embora e você está realmente muito em forma. "Se você não controla o excitamento, vai se sentir um rockstar!", diz Byrn.

Você pode se sair realizando um simples treino. Você pensa, "estou tão bem", e vai e extrapola. "Sua dor foi embora, mas seu sistema imunológico precisa de mais tempo para se recuperar. Esse é um exemplo de uma área que na recuperação tem uma lacuna do controle de excitamento que pode quebrar você. É necessário que o pico saía de você. Isso pode acontecer com recuperação ativa - não estou dizendo para desligar - mas para manter o desejo de continuar indo, você se acostumou com treinos mentalmente difíceis e pode se jogar no limite."

O mesmo acontece com training camps. Você retorna após um grande bloco de treinamento e sua vontade é manter o ritmo de crescimento. No entanto, no mundo real, você vai ter mais fatores estressantes na sua vida e vai precisar de recuperação da sobrecarga.

Bônus: funciona também para a vida
A ideia de controle do excitamento vai além de treinar e competir. Se você descobrir isso em seu esporte, poderá aplicá-lo no trabalho ou em casa. "Se tem filhos, é a única maneira de 'sobreviver'. Eles são totalmente irracionais e não se importam. Aquelas habilidades que aprendi como atleta foram tão úteis quando tivemos as crianças. Para mim, essa foi realmente sempre a parte legal do esporte - ser capaz de dar às pessoas essas ferramentas que elas podem levar para o resto de suas vidas."

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FOTO DA POSTAGEM

Na foto da postagem está Paula Newby-Fraser, mulher dominante no mundial de Ironman durante os anos 80 e 90. Além de deter a marca de 8 títulos mundiais, é também impressionante mencionar que ela venceu 21 dos 26 eventos de Ironman que largou. Quando encerrou a carreira, se aventurou em ultra maratonas e ajudando outros atletas a ter sucesso na prova. O site do Ironman colocou "Um dia na vida" dela e bastante interessante. O acesso fica disponível clicando aqui.




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