TREINO NO PELOTÃO DE CICLISMO

Pelotão no Giro d'Italia 2012 (Foto: Wikipedia)



Treinar ciclismo nos faz conhecer aquela máxima de que é o "esporte individual mais coletivo de todos" quando nos encontramos num pelotão, ou um grupo, de ciclistas motivados e com toda a energia pra nos levar um pouco mais além do que estamos habituados.

Sair para pedalar sozinho tem as suas vantagens, mas o pelotão tende a um maior engajamento e uma melhora na forma de pedalar. O estímulo, além de físico, é também mais forte psicologicamente. Os desafios e a camaradagem dos seus integrantes têm um valor importante nos seus objetivos.

Alguns treinos terão maior eficácia com a dedicação solo, como os treinos de subida ou os de FTP, ainda assim, esses treinos podem iniciar e finalizar com o pelotão. Entendo que o grupo de pedal traz benefícios nos três aspectos do esporte: físico, mental e social. Todos serão melhores quando trabalhados no coletivo.    

No entanto, entrar num grupo de pedal traz algumas dúvidas sobre o seu desempenho: se você é rápido o suficiente para ir ou se a bicicleta está à altura, se está na mesma intensidade do grupo, se está sendo analisado para ser deixado para trás em algum momento... enfim, qual é o segredo do pelotão?

Para quem compete no ciclismo, treinar no pelotão é uma ótima forma de avaliar como está aproveitando a economia de energia que o vácuo proporciona, aprendendo como se posicionar nos grandes dias. Outra vantagem é manter um ritmo mais rápido num espaço curto dentro do "pack", simulando situações de provas e dando maior confiança ao ciclista.

Mesmo para quem não compete, e não tem nenhuma intenção em medir forças com colegas, pedalar em grupo é essencial no aprendizado de habilidades, experiências e velocidade. É interessante se dispor a entrar num grupo de pedal porque uma hora ou outra, você vai acabar estando ou precisando de um pelotão para que o treino seja concluído ou realizado.

Existe, é verdade, a propensão do treino ficar "desestruturado" em alguns momentos, com uma fuga ou uma desatenção dentro do pelotão. Por isso, procure entrar num grupo que tenha o condicionamento - e interesse - parecido com o seu. 

Caso esteja num pelote mais forte, você passa a maior parte do treino em zonas de intensidade acima do planejado. O que implica numa recuperação demorada e, se for repetido frequentemente, pode acabar prejudicando o tipo de adaptação que é necessário no ciclismo.

Enquanto para triatletas, acredito que se deva que os seus treinos de ciclismo, além de capacitar suas pernas para pedalar, também é para aprender que se deve ter forças para correr. Afinal, depois de pedalar é preciso correr.

Estar num pelotão mais forte não é garantia de melhoria da sua performance, longe disso! Coloca em risco a sua corrida no triathlon É legal pelo desafio, mas o melhor a procurar é um pelotão parecido com seu nível e tentar melhorar o ritmo dele.

Num pelotão mais fraco que o seu condicionamento, quando você tem que tirar o pé ou parar de pedalar para se manter no grupo, é prejudicial por não estar entrando na zona de treino e não conseguir atingir a melhora, levando a uma estagnação ou até um destreinamento.

Pode ser interessante ir uma vez ou outra ou quando está retomando após uma parada, com uma razão social. Sempre vale a pena fazer novas amizades que tenham a mesma paixão que a sua. Contudo, lembre que a atividade física exige algum tipo de desconforto para gerar benefícios.

Para manter uma coesão, a comunicação é importante durante o pedal, planejar paradas ao longo do percurso ajuda a revisar o que aconteceu e qual vai ser a forma de continuar. 

As regras de etiqueta e comportamento devem ser combinadas e entendidas. Embora seja difícil impô-las durante todo o trajeto, é provável que a maior parte do tempo, se forem captadas por todos, estarão em prática.

Temos que ter a atenção em dividir a responsabilidade do controle do ritmo. Todos dentro de um pelotão devem participar desse controle, tanto indo à frente como também ficando no meio ou no final do bloco. 

Alguns se interessam por estar embalado no vácuo e ter receio de "quebrar" a intensidade que foi estabelecida, se estiver com o pessoal que tenha a sua mesma força (ou parecida), as chances de isso acontecer são pequenas, a não ser por alguma falha de alimentação ou cansaço do dia. O "estar à frente do pelotão" traz segurança e confiança que você só vai ter se for lá.

Da mesma forma, existem aqueles que procuram se manter sempre à frente por conseguir fazer o treino inteiro dentro da sua zona. Isso acaba deixando o pelotão dependente da sua presença e das suas forças, e nós sabemos que nem todos os dias estamos nas melhores condições. Portanto, mesmo que resulte numa variação indesejada, procure ceder o lugar da frente. Faz bem para o grupo e para você também.

Tem outro perfil que é aquele que espera a hora de atacar o pelotão inteiro ou o que está à frente tem a vontade de largar todos que estão na sua roda. Se isso for frequente, avalie o nível de condicionamento do seu grupo. É certo que ele pode estar abaixo das suas capacidades. 

Agora se é apenas uma fuga pontual, e que o grupo lhe pega cerca de 2 a 5 minutos depois, recomendo que os ataques e fugas fiquem para dias que serão precisos. Repetir esse comportamento com frequência fica difícil para manter a adesão ao grupo, gerando um estresse desnecessário para todos.

Ciclistas de competição ou recreativos e triatletas devem aproveitar o máximo as vantagens de estar num pelotão. Dentre elas estão o desenvolvimento de habilidades, a capacidade de responder ao imprevisível e rodar numa velocidade maior. Outras estão nas diversas possibilidades de ter apoio emocional e social, numa rede quase fraternal, que a experiência em grupo é única.

Incorporar uma ou duas vezes na semana nos seus treinos tem a sua importância nesse aprimoramento. Ter um grupo consolidado lhe trará confiança e para os integrantes dele. Variar de vez em quando o pelotão dá a oportunidade de aprender alguma situação diferente.  

Na minha realidade, acompanho triatletas e ciclistas recreativos, de forma geral. Pela experiência que vivi, é notória a diferença de engajamento dos que treinam em grupo e dos que treinam solo. No entanto, treinar sempre em pelotão também pode lhe trazer falsas interpretações sobre o seu desempenho. 

Para que não tenha todos os seus treinos em pelotão, você pode optar por uma ou duas vezes na semana, rodar cerca de uma hora até o local de encontro (ou chegar mais cedo no ponto para girar até a hora marcada) e/ou mais uma hora depois, vai depender do seu tempo, e aproveitar para tirar algumas dúvidas que tenha sobre o seu rendimento na bicicleta. 

Até porque sabemos como é difícil raciocinar quando estamos empenhados em manter aquela roda e segurar o passo, estar atento aos obstáculos e ao trânsito, e ainda ter que ver como estão suas referências de intensidade.

Alguns atletas evitam treinar em grupo por causa do risco de acidentes ou por ter tido uma experiência negativa, como um desentendimento. 

Para os que temem o risco, posso dizer que os acidentes podem acontecer quando se está só e é assustador pensar em não ter alguém ou um grupo que não saiba onde você está. Procure entrar em grupos pequenos - sempre parecidos com o seu nível -, vá adquirindo a confiança novamente. 

Para quem teve a experiência negativa, recomendo tentar outra vez, entender os motivos e as condições que aconteceram para tentar conter ou reprimir qualquer situação parecida. 

Percebo que as experiências positivas no pelotão são bem maiores que as negativas, por isso, dê tempo e tenha paciência em resolver alguns conflitos pessoais ou sociais. Faz parte do seu amadurecimento nesse esporte, aquele que entre os individuais é o mais coletivo! 

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FOTO DA POSTAGEM

Para ilustrar a postagem, coloquei uma foto do pelotão do Giro d'Itália de 2012, vencida por Ryder Hesjedal. Essa foi uma das grandes voltas vencidas por um ciclista que não venceu nenhuma etapa. Isso acontece com frequência quando o piloto sabe se posicionar no pelotão e tem um bom time cooperando para o seu sucesso, na época era Garmin-Barracuda, que contava com Peter Stetina e Chirstian Vande Velde para auxiliar nas etapas-chave de escalada.

Dentre os cinco primeiros daquela edição, Joaquim Rodriguez (etapas 10 e 17) e Thomas de Gendt (etapa 19) venceram etapas, terminando em segundo e terceiro lugares, respectivamente.

As posições que completaram o top 5 foram do saudoso Michelle Scarponi e do tubarão Ivan Basso, também sem contar com vitórias no "palmarés" em 2012.   

Em tempo, o Giro começa amanhã (em maio novamente, ufa!). Quem vai vestir a Maglia Rosa no fim? 


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