EXERCÍCIO E IMUNIDADE

Freddy Maertens (Foto: The Bike Comes First)


A pessoa habituada a treinar esportes de endurance deve ter ouvido algumas hipóteses sustentadas por quem pratica no que se refere ao sistema imunológico. Até onde esses conceitos podem levar seus praticantes?

Mencionei em alguns textos os benefícios que a atividade aeróbia traz para a saúde com a sua prática regular, e que não devemos esquecer alguns como o controle ou prevenção da diabetes, da pressão arterial, de doenças cardiovasculares; auxilia numa composição corporal saudável, na inibição de comportamentos relacionados à ansiedade ou depressão, na busca por uma alimentação que satisfaça as necessidades esportivas e que, consequentemente, melhora as escolhas nutricionais. 

Dentre tantos benefícios, surge também a possibilidade de diminuir os riscos ou uma melhor recuperação de uma infecção viral. O nome "infecção viral" nos lembra da situação que vivemos há um ano, a de uma pandemia provocada por um vírus. E - por quê não? - o exercício físico teve os holofotes voltados para si quase como uma espécie de "kriptonita" contra o coronavírus. 

Antes de chegar nesse ponto, volto ao início do texto quando levantei as hipóteses sustentadas por quem pratica esportes de endurance, como triathlon, corrida, natação e ciclismo. 

Uma delas é a baixa da imunidade quando se treina por tempo prolongado ou com uma intensidade alta. E outra hipótese é de que sessões de tempo moderado (talvez entre 30-60min) e com intensidades moderadas, melhoram a reposta imunológica às infecções virais.

Se você ainda não ouviu sobre isso, pode ter certeza que irá ouvir. E não venho aqui desmitificar tais sabedorias, afinal, não estão de todo equivocadas. Em consultas aos estudos, o mais curioso conseguirá manter as hipóteses diante de investigações, bem ou mal conduzidas. 

Sim, é verdade que o treino prolongado ou o de alta intensidade pode aumentar os riscos de infecções. A teoria está baseada no fato de colocar um fator de estresse tão desgastante que as células de defesa ou são danificadas ou deixam de responder por um certo período de tempo, abrindo uma "janela" para infecções virais. Comprovada em análises variadas, a concepção é aceita. 

No entanto, novas perspectivas têm questionado a "janela de infecção". Um dos questionamentos é sobre o método da coleta celular, por meio dos índices salivares de IgA (imunoglobulina A, células presentes nas mucosas respiratória e gastrointestinal responsáveis na defesa contra invasores nas suas superfícies). 

Apesar de ter se tornado uma referência, foi observado uma baixa na produção de saliva e a consequente diminuição da quantidade de IgA, em um exercício prolongado como uma maratona. O que levou à conclusão dos observadores de que a qualidade da saliva não é diminuída e sim, a quantidade (CAMPBELL, 2018).

Em outra situação, envolvendo uma ultramaratona (Comrades, 89km), foi o auto relatado sintomas de infecção do trato respiratório após a conclusão dela. Ainda que sem a comprovação laboratorial destas infecções, a amostra verificou que houve maior incidência dos sintomas em quem teve auto relatada infecção respiratória nas quatro semanas antes da prova. Sugerindo que a doença pode vir em quem estar mais sujeito à tê-la do que a prova exaustiva em si.

Sim, também é verdadeira a concepção de que os treinos moderados reforçarão a saúde. E, nesta hipótese, lanço mão de um dos princípios do treinamento que é o da "sobrecarga progressiva". À medida que o treino moderado vai se repetindo, ele tende a ter menos estímulo e não digo apenas na questão motivacional. 

O corpo, para manter em evolução, precisa de tempos em tempos ou colocar uma carga maior de atividade ou, então, recuar para retomar os níveis de exercício com intensidades que acarretam adaptações significativas.

Porém, a sobrecarga não é um princípio linear e a progressão em volume e intensidade não é sempre a mesma. É necessário interpretar quando está moderado e até quando pode ser levado. Existe uma regrinha de periodização do treinamento utilizada pelos treinadores de aumentar 10-15% por semana no volume semanal como aumento da carga de trabalho e a cada 3-4 semanas reduzir pela metade a última, para haver a recuperação apropriada. 

Repetir por um tempo prolongado a mesma intensidade pode acabar gerando um efeito de destreinamento (no caso de baixa e moderada intensidades) ou "overtraining" (quando prolongado ou em alta intensidade). Com relação ao último (overtraining), dentre os sintomas estão a perda de apetite e insônia, provocando alimentação e sono inadequados.  

Portanto, variar as intensidades terão que fazer parte do programa de treinamento. É bem possível que a maior parte dos treinos sejam em intensidades moderadas, mas o atleta de endurance vai perceber os sinais de melhora na sua saúde quando colocado em desafios intensos ou em exercícios prolongados. 

O exercício moderado quando comparado ao exercício longo e ao intenso diminuiu as chances de febre ou infecções, em tentativas variadas em curto, médio e longo prazo; para ambos os gêneros e em todas as idades (NIEMAN, 2011).   

O cuidado que devemos ter é cravar que após um exercício longo ou intenso, a infecção está certa. O atleta deve entender que a recuperação e a alimentação antes e após um treino dependerá do tempo e da intensidade que foi realizado. A fadiga e a demanda energética de um treino curto e leve são diferentes da sensação após um moderado e longo ou um intenso e explosivo. 

Fatores emocionais entram nessa conta. Seria mais fácil isolar o seu treinamento do restante do seu dia, carregado de responsabilidades e emoções. É pouco provável que isso seja possível. Em alguns dias exaustivos, um treino leve pode ser a melhor opção para o seu corpo, ainda que esteja programado o treino específico ou um que te desafie. 

A propensão à infecções reside em que tipo de vírus está circulando. Existem vírus sazonais presentes em todo o mundo e a transmissão deles se dá de pessoa para pessoa, no contato. Observe como o palavreado é familiar:  Aperto de mão contaminada, gotículas de saliva, tosse, superfícies contaminadas são algumas das maneiras de ficar doente. Creio que aprendemos à duras penas como os vírus se propagam na população. 

Sabemos como os esportes de endurance engajam seus praticantes e o convívio social, hoje em dia, já é considerado como um dos fatores primordiais que os mantêm nas atividades. Contudo, estamos atravessando um momento delicado para esse convívio e a forma mais eficaz de não propagar o novo coronavírus é o distanciamento. 

A melhor forma de se manter saudável é continuar praticando exercícios, combatendo às chamadas comorbidades, diminuindo os riscos de complicações em infecções. Mas a imunidade ao vírus está no "não contato" com ele, através da higienização de mãos e superfícies, evitar aglomerações ou saídas de casa sem um propósito essencial. Quando for treinar na rua, procure evitar comportamentos de risco para você e a população que vive nas imediações. 

Uma consulta ao seu treinador pode auxiliar nesse balanceamento. Temos bons programas capazes de avaliar a produção dos treinos, uma sensibilidade em considerar os fatores externos (emocionais e sociais) para adequá-los.      
       
Se puder treinar em casa, faça-o e mantenha-se saudável através dos exercícios aliados com alimentação, sono e responsabilidades condizentes com o seu momento.
   
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LEITURAS QUE CONTRIBUÍRAM PARA A POSTAGEM:

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FOTO DA POSTAGEM
Freddy Maertens. No mês que as clássicas de ciclismo se iniciam na Bélgica, o "Freddy Nove Vidas"  deve ser lembrado, um jovem ciclista que ousou desafiar (e vencer) os grandes Eddy Merckx e Roger de Vlaeminck. Com temporadas de 50 vitórias, dois títulos mundiais, sua vida também é marcada por problemas financeiros. 
Seu regime de treinos incluía longas pedaladas diárias em pleno inverno belga, as paradas para o almoço - reza a lenda - consistia em subir correndo uma ladeira perto de casa, algumas vezes carregando a esposa nas costas. 

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