A CORRIDA PERFEITA



Uma corrida perfeita está associada à economia de energia do movimento, ou seja, utilizar a menor energia possível para um determinado esforço. Esta associação inclui, além da biomecânica, a capacidade aeróbia e o limiar de lactato. Quem corre deve ter os três fatores citados para obter o sucesso.

A corrida, como todo esporte, vive em constante mutação no que diz respeito a sistemas de treinamento, tecnologias de tênis e equipamentos, referências fisiológicas, estratégias de prova. A parte biomecânica corre junto com estas constantes revisões. Pessoalmente, vejo como evolução. Um esporte que está cada vez melhor em praticar.

A mudança para a biomecânica passa pelo princípio da individualidade, a forma como a pessoa assimila o movimento, como o seu corpo executa o gesto, a capacidade em manter um padrão. O que estamos aprendendo é que cada qual tem a sua forma. 

Na mecânica, o foco será a economia e a eficiência. A economia em desgastar menos, como já foi dito, e a eficiência é a melhor forma, em velocidade e distância, que o seu corpo é capaz de fazer.

CADÊNCIA
Por um tempo, acreditou-se num número mágico para a quantidade de passadas por minuto (ppm), a cadência. Crença criada após Jack Daniels comprovar que dos 48 atletas do time olímpico americano de 1984, apenas um tinha a cadência abaixo de 180 ppm e era 176! Todos os outros ou tinha 180 (a maioria) ou acima. Quando retornou para a faculdade onde trabalhava, o treinador viu que do seu time universitário, apenas um tinha cadência em 180 ppm. Concluiu que para obter melhores resultados, poderia aumentar a cadência.  

Acreditamos nesse número. Eu posso me incluir nessa população. No entanto, o que se tem observado é que a cadência pode variar de acordo a altura e o peso, o nível de treinamento, a intensidade da corrida e o ambiente que os treinos estão sendo realizados. A cadência ideal é um resultado multifatorial, esse número deve ser definido a partir da observação da corrida de cada atleta.

ATERRISSAGEM
Outro ponto controverso é a aterrissagem, o momento que o pé entra em contato com o chão. Um livro famoso, "Nascidos para correr" de Christopher McDougall, sustentou a ideia de correr com os pés descalços em razão do formato dos tênis da época influenciarem tanto na corrida que as pessoas deixaram de interpretar e sentir o seu próprio pisar no chão.

Tudo bem que retirar os tênis pode ser uma atitude extremamente radical. Contudo, sugiro correr descalço por alguns metros em velocidades e terrenos variados - com a devida segurança em saber onde está fazendo. Assim, você conhece a forma de aterrissar que se adequa à corrida.

Em qualquer forma de aterrissar - com o calcanhar, médio-pé ou antepé - dê atenção em como você amortece e utiliza a carga para continuar indo em frente, diminuindo o tempo de desaceleração. Joelhos e quadril, tronco e braços estarão envolvidos na observação.  

TÊNIS
O tênis deve ser adequado ao seu jeito de correr e não o contrário. Muitas vezes, podemos ver atletas adquirindo o seu par de tênis baseado em experiências de colegas ou num design arrojado. Antes de fazer o pedido na loja online, procure experimentar o calçado. A decisão deve ser centrada no que você sente e pode surpreender. 

Verifique os seguintes fatores para a escolha:

  • Tipo de treino 
  • Local dos treinos e das provas 
  • Tipo de pisada (neutra, pronada, supinada)
  • Forma de aterrissagem

CORREDOR X TRIATLETA
Ainda não há comprovação científica de que a mecânica da corrida no triatleta seja diferente dos corredores. A hipótese levantada é na forma do triatleta treinar corrida, que em alguma vez da semana é após pedalar ou nadar ou após nadar e pedalar. 

Desta forma, o triatleta deveria ter uma corrida com menor desgaste. Tanto para conseguir treinar as outras modalidades como para suportar uma corrida que está consumida pela fadiga da(s) modalidade(s) realizada(s) imediatamente antes. 

Em um estudo japonês, foi identificado uma maior economia de energia e menor custo de corrida em triatletas quando comparado aos corredores, através da observação de uma maior extensão do ombro., enquanto que em joelhos, tornozelos, quadril e cotovelo os dois grupos tiveram resultados parecidos na movimentação. 

Outro fator observado no mesmo estudo foi o custo de corrida, calculado pelo produto de oxigênio consumido e energia por unidade de distância e peso corporal. Nos corredores acabou sendo maior, sugerindo menor economia de energia de corrida. Mesmo tendo verificado um melhor VO2máx nos corredores, a economia pareceu residir na natureza do triatleta em ter que preservar energias para completar o seu esporte.  

EDUCATIVOS
O treinamento de educativos ou separar alguns momentos da sessão para realizá-los tem a sua importância por aprimorar o gesto, com a repetição e o isolamento de uma fase. 

O controle motor traz uma melhor coordenação, auxiliando na economia de corrida, o que possibilita ganhos na força e potência. Você explora o potencial que a amplitude do seu corpo oferece.

CONCLUSÃO
Atletas que estão iniciando na corrida, geralmente, despendem maior energia para correr. Além do nível de condicionamento, é reparada alguns movimentos ou situações do gesto técnico que podem ser melhorados. A postura vai estar relacionada com o histórico atlético, a força, a potência e a habilidade em coordenar movimentos do corpo.

Estamos vivenciando uma nova era, baseada no princípio da individualidade. As necessidades que a pessoa deve ter para o seu tipo de corrida. O que se deve procurar não é repetir a forma dos melhores corredores do mundo - que em observação mais aprofundada, a forma deles é tão variada quanto dos amadores. O objetivo estará nas demandas e nas capacidades que a pessoa tem.

O veterano em treinos de corrida deve ficar atento ao seu histórico de lesões para observar quais momentos podem ser melhorados. Fortalecimento, mobilidade e flexibilidade das articulações irão influenciar diretamente no correr. É preciso levar em consideração o volume e a intensidade empregados, para que a repetição ou a sobrecarga não sejam arriscados por excessos. 

As recomendações ao veterano seguem as mesmas para quem está iniciando, com a proposta de não haver um "histórico de lesões" e mesmo que tenha, é possível identificar um padrão nos tipos de lesão. Portanto, o acompanhamento e avaliações pontuais servirão na prevenção e/ou tratamento de lesões que podem surgir.

A corrida perfeita está em suas mãos, não é uma condição de seres superdotados geneticamente. O seu corpo pode executar tudo aquilo que você treina. 

    

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Leituras que contribuíram para a postagem:

Training Peaks
Active
Born To Run
Springer
Estudo japonês
PubMed
Training Peaks (exercícios de mobilidade)

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FOTO

Adhemar Ferreira da Silva. O maior atleta olímpico da nossa história. Nesta última semana, fez 20 anos que nos deixou e encontrei uma matéria que elenca as suas conquistas, vale a pena a visita. (Link

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