ÁGUAS ABERTAS: COMO LIDAR COM O MEDO?



O medo está no ser humano como parte de sua evolução, instinto de sobrevivência. No entanto, pode nos paralisar e impedir de completar ou executar alguma tarefa. Os medos podem ir em três direções: de perder, do processo ou do fracasso. Sendo reais, quando há evidentes sinais de perigo, ou irracionais, quando a mente produz diante de determinadas situações. 

Infelizmente, para vencer o medo, uma das propostas é enfrentá-lo. Para enfrentar, é preciso se expor às situações que mais tememos. Na maioria das vezes, o medo está na mente e quanto mais adiamos ou nos recusamos a encarar a situação, maior será o tamanho do medo.

Ao mesmo tempo que o triathlon e a natação em águas abertas ganha visibilidade, é notável um dos principais obstáculos para iniciar em uma destas modalidades: o medo. 

O medo em atletas que nadam em águas abertas, se dá por alguma das seguintes razões: 

  • Falta de uma borda nas laterais como na piscina 
  • Impossibilidade de salvamento em caso de algum mal estar incapacitante 
  • O movimento da água nas ondas e nas correntezas
  • Um encontro com um predador aquático

Juntamente com a falta de confiança e a ansiedade, a falta de compreensão sobre o que é preciso para nadar ou de alguma limitação anatômica podem ser um dos obstáculos necessários para demover a sensação de impotência na natação em águas abertas. 

Como foi dito anteriormente, para superar o medo, devemos enfrentá-lo. Mas como enfrentar as águas abertas? Podemos seguir 4 princípios:

  1. Conforto na água
  2. Respiração frequente e efetiva
  3. Ajuste de acordo com a limitação anatômica
  4. Condicionamento físico     

Para garantir o conforto na água, é melhor dedicar alguns treinos na piscina antes de ir às águas abertas. Caso não seja possível, encontrar um lugar com águas calmas e utilizar uma área parecida com a de uma piscina (entre 25 e 50 metros). As estratégias para ficar mais confortável na água são os trabalhos de técnica e de estímulos intervalados curtos.

A forma elementar em trabalhar a técnica é isolar uma parte do movimento. Assim, o atleta foca em melhorar uma parte e o resto vem "à reboque". Um exemplo é utilizar a polibóia para realizar apenas o movimento de braço. Com as pernas imobilizadas, os braços terão que ser eficientes para levar o nadador adiante. 

Os estímulos intervalados curtos possibilitam ao praticante ficar mais tempo na água e, consequentemente, completar uma distância maior. Com os intervalos de descanso, os estímulos são efetuados em boa velocidade e técnica.

Geralmente, o descontrole da respiração acabam provocando o medo ou o contrário, o medo provoca um descontrole na respiração. Padronizar a respiração diminui as chances de acontecer isso. O ideal é aprender a respirar para os dois lados, dando mais versatilidade para quem nada. Portanto, um padrão 2:1, típico da respiração bilateral, pode ser a melhor forma de controlar a respiração. 

Quando vemos uma limitação anatômica, as mais comuns são relacionadas à falta de flexibilidade em ombros e tornozelos, a melhor abordagem é conseguir que ela tenha o menor arrasto possível. Existe um consenso em alguns movimentos técnicos baseados em atletas de elite (como ângulo de cotovelo, ritmo de pernadas, etc.), mas que eles não devem ser utilizados como um fim a se chegar. 

Para um tornozelo inflexível, séries com pé de pato vão auxiliar no ganho de força e efetividade para a propulsão. Séries com polibóia ou elástico nas pernas colaboram no fortalecimento do core, deixam a região capaz de sustentar um posicionamento mais próximo da horizontal e diminui o arrasto que um tornozelo "duro" causa.

Um ombro "travado" terá dificuldade em realizar a rotação do tronco, movimento realizado durante a braçada para diminuir o arrasto, séries que promovam aumento da cadência ou mesmo com palmar irão melhorar a potência da braçada sem forçar uma técnica que a limitação da pessoa não possa realizar. 

Os trabalhos de flexibilidade e alongamento não são descartados, como prevenção de lesões, numa musculatura que tende a sofrer mais que uma flexível.

E, por último, é o condicionamento físico. A natação, por ser técnica, cria a ilusão de que priorizar a técnica frente as valências do condicionamento físico - como endurance, potência e resistência muscular, beneficiarão o nadador. A água é 800 vezes mais densa que o ar, para vencer essa resistência é preciso ter condicionamento. 

Para a melhora do condicionamento, todas as zonas podem ser trabalhadas. Ao atleta que projeta ter uma natação em águas abertas mais tranquila, os treinos de força e de natação em alta intensidade lhe darão mais suporte para suprir as demandas que o ambiente exige.      

"Métodos tradicionais de treino podem não ser os mais eficientes para nadadores adultos para ganhar proeficiência. Contudo, responder e saber das ansiedades dos atletas, priorizar o fomento do conforto na água, ajustando limitações anatômicas e construindo estrategicamente força e condicionamento habilitam o progresso mais rapidamente, deixando-os nadar mais forte, melhor e mais rápido" - Conrad Goeringer 

Quanto à segurança nas águas abertas, obtenha informações de onde você quer nadar. As informações devem basear nos medos que você tem. Só não os deixe impedir de fazer um dos esportes cada vez mais possível de fazer e cheio de adeptos no mundo inteiro, tanto o triathlon como a natação em águas abertas.


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Leituras que contribuíram para a postagem:

Training Peaks
Psicologia Viva

Vídeo que ajuda a encarar águas mais turbulentas (em inglês):

SASWIMVIDEOS

Foto: Ana Marcela Cunha, atleta de natação em água abertas (Agência Brasil). Sua biografia no "Swim Channel":

Ana Marcela Cunha sempre foi um talento precoce. Aos dois anos de idade já dava suas braçadas na creche em Salvador onde aprendeu a nadar e aos 13 anos já disputava competições de águas abertas de igual para igual contra adversárias bem mais velhas. Em 2006 com apenas 14 anos venceu sua primeira grande competição a nível nacional: a Travessia dos Fortes no Rio de Janeiro e iniciava ali uma carreira de grande sucesso internacional.

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