Acabo de ler um artigo (que acabou se tornando a âncora para essa postagem) que conta as fases do vício na atividade física da mesma forma com que é utilizada para diagnosticar o "grau" que a pessoa está. O estudo cita um livro que tem o sugestivo título "Viciado? Reconhecendo o comportamento destrutivo antes que seja muito tarde", nele está o "exemplo de Sally" que reconhece cada fase do vício em exercício físico. Infelizmente, começa como todos os outros, com a negação. É muito difícil a pessoa admitir que está viciada ou quando o faz, é de uma forma que faz parecer que é muito bom estar assim...
Que o exercício físico traz inúmeros benefícios à nossa saúde, ninguém duvida. Contudo, é difícil acreditar que ele pode viciar e trazer alguns vícios à reboque. No momento que você está lendo isso, você pode pensar "ei, mas se é uma coisa boa e pode viciar, isso é bom, não?", acrescentado de "se pode trazer mais alguns vícios, eles podem vícios saudáveis, não é?". Pois é... queria eu que a resposta fosse sim, mas não é.
O uso da atividade física para combater alguns distúrbios comportamentais - tais como ansiedade, estresse, transtorno alimentar e transtorno obsessivo-compulsivo -, pode acabar se tornando o próprio distúrbio em si.
O exagero no número de sessões, na quantidade de carga ou no tempo despendido para fazer a atividade são sinais do vício e as suas consequências são tão danosas quanto qualquer outro vício.
Definindo o que é vício
O "exemplo de Sally", eu vou colocar mais para depois ou em outra postagem. Por ora, vamos chegar a uma definição do que é vício. Pode ser que a pessoa que faz muito exercício não seja um caso de vício. Por exemplo, um atleta olímpico. Ele treina cerca de 6 a 10 horas por dia com o objetivo de performance ótima, o seu corpo atinge o máximo dos parâmetros de saúde e está bem próximo da exaustão. No entanto, o trabalho dele é esse e, lógico, num programa olímpico está todo balanceado o estímulo com o descanso e a alimentação. O atleta olímpico basicamente treina, come e dorme, não há tempo para muitas distrações e digressões. Toda e qualquer lesão já é policiada e resolvida da melhor forma. Não existe dor que não seja tratada a tempo de recuperar o atleta e deixá-lo saudável o mais rápido possível.
Existem alguns critérios para identificar o vício (Hausenblas and Downs, citado em Freimuth, 2011), são eles:
- Tolerância - aumento da carga/volume de exercícios para sentir-se bem
- Retirada - na falta de treinos, a pessoa apresenta comportamentos negativos tais como ansiedade, irritabilidade, problemas no sono e cansaço
- Descontrole - insucesso em diminuir o treino ou interrompê-lo por um período de tempo
- Efeito Intencionais - a incapacidade de manter a rotina por ter boa parte do seu tempo destinado aos treinos
- Tempo - boa parte do tempo é separado para treinar ou para descansar dos treinos
- Redução em outras atividades - as atividades sociais, recreacionais, familiares e profissionais são diminuídas ou até são interrompidas
- Continuidade - manutenção do exercício mesmo sabendo que aquilo esteja causando efeitos danosos psicológicos, fisiológicos e problemas interpessoais.
A atividade física é um estímulo, o controle dela estará na intensidade, frequência e no tempo despendido para o descanso e recuperação. Existem hipóteses biológicas (Griffiths citado em Freimuth, 2011) para a ocorrência do vício, após análise de alguns casos:
- Hipótese Termogênica: o exercício aumenta a temperatura corporal, reduzindo a ansiedade somática. A diminuição da ansiedade está relacionada com o aumento da tempratura de certas área do cérebro;
- Hipótese Catecolamina: o exercício libera catecolaminas, que são fortemente ligadas ao controle da força de vontade, atenção e movimento assim como também às respostas endócrinas e cardiovasculares ligadas ao estresse
- Hipótese Endorfina: o exercício libera endorfinas, que dão uma sensação de prazer no corpo. Essa experiência prazerosa traz consequências inesperadas. Com o treinamento aeróbio intenso, o aumento na produção de endorfinas resulta na diminuição do controle cerebral na regulação da produção delas. Se isso acontece, a pessoa precisa continuar o exercício para manter o equilíbrio natural no cérebro.
Algumas populações são mais atingidas pelo vício sem notar, como os ultramaratonistas e pesquisadores e estudantes de ciências esportivas. Neste tipo de população, a atividade física está tão dentro da rotina e do trabalho da pessoa, que é muito difícil chegar ao diagnóstico preciso.
Existem evidências muito claras em adolescentes e jovens. Algumas vezes, o vício em exercício traz a anorexia nervosa ou mesmo transtorno obsessivo-compulsivo. Nessa amostra, há contexto social em ser aceito num certo grupo.
Pessoas com histórico de depressão ou ansiedade, ou que têm na família algum caso, também têm uma tendência a procurar na atividade física a "cura" dos seus problemas. O que no início é mesmo real. Porém, quando mal administrada, ela começa a se tornar o problema.
O uso da atividade física para esquecer dos problemas ou em deixar para depois resolver algumas questões da sua vida, pode até ser benéfico em alguns dias. Agora, quando isso acontece todas as vezes e você começa a escapar literalmente da sua vida, o exercício está se tornando o problema.
Supertreinamento
O assunto do vício em exercício físico também é extenso. Há no meio acadêmico o termo chamado Supertreinamento (ou overtraining), que explica muito sobre o vício. O supertreinamento é quando você já esgotou o seu corpo de tal forma, que mesmo você colocando mais estímulos nele, tudo o que você vai conseguir é mais exaustão e menos performance.
O curioso que a solução para o supertreinamento ou o vício em exercício físico parece ser muito simples: descanso. O descanso nunca deve ser descartado do seu programa de treinamentos, no qual está incluso. A montagem e criação de um ciclo de treinamento é quase arte na hora de fazer o balanço entre atividade/recuperação. A dosagem não é exata para todos e cada qual consegue responder à sua maneira. O descanso, na maioria dos casos, parece mesmo ser o mais difícil de conseguir.
Descanso
Muitas vezes, as pessoas não aceitam o descanso e relacionam com a preguiça e a falta de vontade, sinal de que vício pode estar chegando...
Sempre que estiver envolvido numa atividade física, seja sincero com você e procure fazer com que essa atividade seja realmente prazerosa, não um vício ou uma fuga. Procure a sua melhor performance não só treinando, mas vivendo! Descanse, saia pra distrair... tome um sorvete! O exercício físico, sempre digo, é um hábito parecido com ir comer ou escovar os dentes, você não precisa sair pelo mundo dizendo como escova os dentes ou come e não há uma performance melhor ou pior que a sua nestas atividades, existe sim uma forma para cada qual destas atividades de otimizar o seu desempenho, tanto nos treinos quanto na dieta ou na limpeza dos dentes.
Após ler esse texto, não tome decisões precipitadas. A proposta dessa postagem é trazer alguma reflexão sobre como você encara o seu treino. Espero ter contribuído nisso. Um abraço e até a próxima!
Alguns dos textos que li para essa postagem:
Know the signs of unheatlhy exercise addiction
Ciência explica por quê o exerício físico pode viciar
Clarifying Exercise Addiction: Differential Diagnosis, Co-occurring Disorders, and Phases of Addiction
Assuntos que estão relacionados e que teve uma rápida passagem nessa postagem:
- Dependência de ultramaratonistas: Allegre B, Therme P, Griffiths M. Individual factors and the context of physical activity in exercise dependence: A prospective study of “ultra-marathoners” Int. J. Ment. Health Addict. 2007;5:233–243.
- O vício de pesquisadores e estudantes do esporte em atividade física: Haylett SA, Stephenson GM, LeFever RMH. Covariation of addictive behaviors: A study of addictive orientation using the Shorter Promis Questionnaire. Addict. Behav. 2004;29:61–71.
- Vício em exercício associado com anorexia nervosa: Klein DA, Bennett AS, Schebendach J, Foltin RW, Devlin MJ, Walsh BT. Exercise “addiction” in anorexia nervosa: Model development and pilot data. CNS Spectrums. 2004;9:531–537.
- Estudo de caso: Griffiths M. Exercise addiction: a case study. Addict. Res. 1997;5:161–168.

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